Eu cheguei do Brasil não faz nem uma semana e sempre fico uns bons dias bem deprê quando volto pra cá. Então, aproveitando esse clima de saudade, me deu na telha de vir escrever aqui sobre a melhor e a pior parte de morar fora, mais precisamente nos EUA. Existem vários fatores, claro, mas vou registrar aqui o que pega mais pra mim, emocionalmente e superficialmente falando, sem nem tocar em questões como educação, saúde, impostos, etc. (posso voltar aqui para escrever sobre isso mais pra frente).
LADO BOM:
1 – Poder aquisitivo
Mandei esse logo de cara porque é o mais óbvio e o mais conhecido. Nessa última viagem ao Brasil eu fiquei horrorizada ao descobrir que um iPhone 12 Pro Max custa mais de R$12.000,00!!! Para se ter uma ideia, aqui um iPhone 12 Pro Max, de 512gb, desbloqueado, custa atualmente U$1.399,00 mais uns U$200,00 de impostos. Mesmo convertendo o valor seria praticamente a metade do preço do mesmo produto no Brasil, mas lembre-se que aqui ganhamos em Dólar e gastamos em Dólar, e obviamente no Brasil se ganha em Reais e se gasta em Reais, ou seja, proporcionalmente falando**, o mesmo produto no Brasil é quase 8x mais caro! Enquanto eu sonhava (nunca tive essa grana toda) em poder comprar essas coisas e pagar o preço que fosse quando eu morava no Brasil, pra mim hoje não há argumento algum que justifique esse preço.
**Para referência, o valor do salário mínimo em 2021 no estado de NY é U$12,50/hora. Vamos dizer que uma pessoa trabalha 40h/semana, no final do mês essa pessoa receberia U$2.000,00, mas vamos tirar aí uns U$ 500,00 de impostos (acho que estou exagerando um pouco) e no final do mês essa pessoa então faz U$1.500,00. No Brasil, o salário mínimo mensal em 2021 é R$1.100,00. Logo, nos EUA uma pessoa que ganha o salário mínimo precisa trabalhar um mês para comprar um iPhone, já no Brasil uma pessoa que recebe o salário mínimo precisaria trabalhar praticamente o ano inteiro!!
Uma outra coisa é compra no supermercado. Não que aqui seja muito barato, mas de novo, proporcionalmente falando (sem conversões) é mais em conta sim. Hoje em dia eu pego o que eu estiver com vontade de comer e – literalmente – agradeço a Deus toda vez após pagar no caixa por ter condições de bancar isso. No Brasil eu passava vontade por conta do preço. Além disso, viagens, restaurantes, carros, são muito mais acessíveis, o que me traz ao próximo item:
2 – If you can dream it, you can do it
Como dizia o meu amigo Walt Disney: “Se você pode sonhar, você pode realizar.” Essa frase na verdade é válida para qualquer um que tenha sonhos e muita força de vontade, mas eu percebi que aqui isso se aplica para tudo, num espaço mais curto de tempo. Desde aquela vontade de sair pra comer num restaurante chique em Manhattan, ou fazer aquela viagem dos sonhos, até aquela vaga que vai te abrir caminhos para chegar onde você quer profissionalmente. Eu não quero ser injusta e dizer que não é assim no Brasil, mas a sensação que tenho é que tudo nos EUA é apenas uma questão de querer. Tudo se torna mais tangível, alcançável. A famosa Terra das Oportunidades. E é mesmo! Eu vim para cá como AuPair, fui nanny por um ano depois disso e após três anos fora do mercado de trabalho (e sem nunca ter trabalhado em uma empresa americana) eu consegui um emprego super legal num hospital aqui. Era um trabalho temporário para um projeto bem grande (que aliás já acabou), eu só tinha as qualificações básicas para a vaga e mesmo assim me deram a oportunidade. No final, eu era uma das que sempre treinava funcionários novos, eu era enviada para ajudar com problemas cruciais nos hospitais e era escalada para dar cobertura nos departamentos mais importantes. Desde março não estou trabalhando e, embora as vezes eu fique frustrada, eu sempre me lembro dessa oportunidade e que, assim que eu começar a trabalhar novamente, this girl over here is going to places!! Hoje eu vejo que TUDO aqui é possível. Tudo mesmo – basta querer!!
3 – Segurança
Eu me sinto mais segura aqui quando estou em casa sozinha, quando ando na rua a noite ou quando tiro meu celular da bolsa para tirar uma foto sem nem pensar ou olhar em volta. Tem polícia em tudo quanto é lugar e geralmente eles respondem rápido quando chamados, fora que eles são autoridades mesmo. As pessoas respeitam isso. É claro que existem regiões mais violentas e regiões mais calmas, como em qualquer outro lugar, mas em geral você tem uma sensação de segurança bem maior. Aliás, a maioria das casas americanas não tem portão. Geralmente tem uma cerca na parte de trás apenas para privacidade, mas a porta da frente mesmo não tem proteção nenhuma a não ser pelo trinco. Os serviços de entrega deixam suas encomendas na porta da frente, a Deus dará, e raramente algo ruim acontece. Claro que tem louco pra tudo em tudo quanto é lugar do mundo, né?
O legal é que se um vizinho ver alguém estranho andando na grama da frente da sua casa, ele vai chamar a polícia por você. Se eles verem alguém tentando pegar suas encomendas, eles vão lá ver o que está acontecendo por você. E é assim porque eles tem um senso muito grande de comunidade, onde um ajuda o outro, onde é de interesse de todos manter a vizinhança tranquila e limpa. O que me leva ao quarto tópico:
4 – Senso de responsabilidade civil
Uma das coisas que mais admiro na cultura americana é o senso de responsabilidade e dever para com a sociedade que os cidadãos têm. Aqui existem voluntários para praticamente tudo: desde ajudar a fazer comida para pessoas carentes, ou fazer companhia para um idoso, até trabalhar no corpo de bombeiros. Outro fator mais característico dessa mentalidade é que é bem mais incomum o pessoal jogar lixo na rua, abandonar animais, não recolher o cocô do cachorro deles, deixar o carrinho do mercado ocupando a vaga de um carro em um estacionamento lotado, e por aí vai. Não estou dizendo que aqui é perfeito; pelo contrário – falta muito pra isso! Tem gente que não está nem aí pra nada também, mas em menor escala.
Uma outra coisa aqui é que (quase) todo mundo cuida da aparência da sua casa. Todo mundo corta a grama, planta flores, tira a neve da calçada… e se tem um vizinho debilitado que não pode tirar a neve da porta da casa dele, por exemplo, alguém tira pra ele. Eles gostam de manter as aparências, então se você quer morar num bairro bom, sua casa tem que “pertencer”ao padrão desse bairro, por isso eles cuidam da casa deles e esperam que os vizinhos façam a mesma coisa. No feriado de 04 de julho (Independência dos EUA), um vizinho nosso comprou bandeiras americanas e pendurou em todos os postes aqui da rua para enfeitar (claro que ele pediu autorização para os donos das casas onde os postes estavam primeiro). Por outro lado, eles também reclamam se o quintal do vizinho está muito bagunçado com propensão a atrair bichos, reclamam se o seu cachorro fez xixi na flor que eles acabaram de plantar ali na frente de casa, se já passou das 22h e a música da sua festa ainda está muito alta, e tudo mais que vizinhos geralmente reclamam. Inclusive temos um “fenômeno” aqui chamado Karen (ou Richard, para homens), que é basicamente o nome dado à toda e qualquer americana branca, de meia-idade, de classe média alta e caçadora de confusão.
LADO NEM TÃO BOM:
1 – FOMO (Feeling Of Missing Out)
Traduzindo: Sensação de estar perdendo (algo/momento/oportunidade). Eu tenho MUITO isso. Toda vez que alguém me manda uma foto dum churrasquinho de domingo, ou de um café da tarde com um pãozinho caseiro e um cafezinho feito na hora, me dá um aperto no coração. Fora quando eles começam a falar de um assunto que aconteceu quando eu não estava lá e que por isso não fazia ideia. E olha que sempre fui muito desapegada de tudo e de todos, hein?! Sou escorpiana, minha filha, encerrar ciclos é comigo mesma! Não sei o que está acontecendo…
É difícil explicar. Toda vez que volto ao Brasil a sensação que tenho é de que o tempo não passou, mas ao mesmo tempo tudo aconteceu. Entendeu? hahaha É um sentimento confuso mesmo. É como se eu tivesse dormido durante todo o tempo em que eu não estive lá, daí quando eu volto parece que uma noite só se passou, mas agora todo mundo está mais velho.
Voltar para os EUA sempre me deixa com a sensação que estou abandonando minha família e isso me deixa MUITO triste. É com essa tristeza que geralmente passo minha primeira semana de volta pra “casa”. Aliás, eu ainda acho difícil chamar os EUA de casa/lar, o que me lembra do próximo item que eu acho ruim:
2 – Sensação de não pertencer a lugar nenhum
Quando eu morava no Brasil, eu não via a hora de embarcar para os EUA. Agora que moro nos EUA, eu não vejo a hora de ir para o Brasil. No fundo eu sei que independentemente de qual país eu escolha morar sempre vai faltar algo. Eu sempre vou estar incompleta e eu sempre vou sentir saudades de alguém. Sempre. Para o resto da vida. Tem pessoas que dizem que fica mais fácil ao longo do tempo. Bem, pra mim não foi assim. Eu apenas me acostumei a ter que lidar com o sentimento, mas ele sempre está ali, incomodando do mesmo jeito. E dói perceber que a vida lá aconteceu sem minha presença, que as pessoas casaram, fizeram aniversário, tiveram filhos, e eu não estava lá.
Eu sinceramente não sei como tem gente que consegue largar tudo e começar do zero em outro país, sem conhecer ninguém, sem malemá falar o idioma e sem saber quando vai poder visitar a família de novo. Se você é uma dessas pessoas, saiba que eu te acho foda e que você é forte pra car&%$#!!

3 – Serviços de estética
Eu avisei que ia dar um ponto de vista superficial! Minha gente, essas coisas aqui são muito caras e nem são tão boas. Eu faço depilação desde os meus 18/19 anos (nem faz tanto tempo assim) e assim continuo firme e forte, mas uma sessão aqui custa cerca de U$60,00! Fora a tip que geralmente é de 10% a 20% do valor do serviço. Como eu vou todo mês eu compro um pacote, mas o desconto não chega nem a U$10,00/mês. Eu também já tentei fazer sobrancelha aqui em diversos lugares, mas embora seja razoável, nada se compara a sobrancelha a la brasileira (saudades, Fabi!!).
Corte de cabelo também é mais ou menos o mesmo valor que a depilação, e eu não sei o que acontece, mas não confio neles. Não confio em fazer tratamento, não confio em fazer luzes, não confio que eles realmente sabem o que estão fazendo. Nada. Se você ir no salão e falar que quer pintar o cabelo de roxo com bolinhas amarelas eles vão fazer sem pensar duas vezes. Tem gente que prefere assim, mas eu sei que nem tudo que eu gosto fica bom pra mim, então eu sinto falta de uma opinião profissional. Acho que fiquei mal-acostumada com a qualidade desses serviços no Brasil… eu sempre penso que o pessoal que eu costumava ir lá iria fazer muito dinheiro se trabalhasse aqui.
4 – Comida
Toda vez que alguém me pergunta sobre comidas típicas americanas as únicas que me vêm em mente são: hamburger, hotdog e mac&cheese. Não da para comer isso todo dia, então nosso “cardápio” durante a semana é inspirado em comidas de outros países, também muito populares aqui. A família do meu marido é de descendência irlandesa, então comemos bastante steak com batatas e aspargos ou brócolis e Beef Stew (tipo o nosso picadinho) quando está mais friozinho. Fora isso, comemos bastante comida italiana, mexicana, grega e, como eu que cozinho e não sou obrigada a nada, brasileira. Eu só faço o básico, mas mesmo assim não é a mesma coisa. Minha mãe põe linguiça calabresa no feijão, por exemplo, e eu até hoje não descobri como que se fala isso aqui, muito menos onde comprar, e olha que já pesquisei bastante! (se você sabe como fala/onde compra, me avisa, por favor!).
O fato é que eu mudei minha alimentação completamente para conseguir me adaptar. Hoje dificilmente como outra coisa no café da manhã que não seja ovo ou mingau de aveia. Eu confesso que gosto muito disso, mas não existe NADA que se compare com uma boa comidinha brasileira, especialmente comida de mãe. Até as pizzas e os cachorros-quentes brasileiros são incomparáveis. E não é só a comida que faz falta; a atmosfera dos restaurantes brasileiros também é diferente. Não achei nada parecido com botecos aqui, com porções de pastéis, cerveja gelada e uma musiquinha ao vivo de fundo. Não existe, minha gente! Por isso que quando vou ao Brasil eu encho o bucho e vou ao máximo de lugares possíveis!
Realmente para cada escolha, uma renúncia. Não podemos ter tudo, mas podemos aproveitar tudo o que temos. Se você mora fora também, estou curiosa para saber sua lista de “lado bom e lado ruim”. E, se você está pensando em se mudar, você acha que vai sentir falta do que? E o que te empolga mais no país para onde está se mudando?
xoxo